Educação financeira nas escolas: a lei que passou e o que fazer se você não teve essa aula
O Senado aprovou a educação financeira nas escolas em julho de 2026, mas 55% dos brasileiros entendem pouco ou nada do tema. Veja o que muda e como aprender.

No dia 15 de julho, o Plenário do Senado aprovou a inclusão da educação financeira no currículo do ensino fundamental e médio. É uma boa notícia para quem ainda vai nascer ou está na escola agora. Para todo mundo que já saiu da sala de aula, o problema continua em pé: uma pesquisa do Banco Central mostra que o brasileiro adulto tira, em média, 59,6 em uma escala de 0 a 100 quando testado sobre o próprio conhecimento financeiro.
As duas notícias são a mesma notícia. O país decidiu ensinar às próximas gerações o que a atual não aprendeu em lugar nenhum. Vale entender o que a lei muda de verdade, por que ela nasceu agora e, principalmente, o que fazer se você é adulto, já tem conta em banco, cartão de crédito e nenhuma aula formal sobre isso.
#O que a lei aprovada pelo Senado muda na educação financeira
O Projeto de Lei 2.979/2023, do deputado Any Ortiz, tramitou no Senado com um substitutivo da senadora Teresa Leitão, relatora da matéria. O texto altera o artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/1996) para determinar que a educação financeira seja trabalhada como tema transversal na educação básica. Não nasce uma disciplina nova: o conteúdo entra dentro de matérias que já existem, como matemática, história e geografia, e cada escola decide como encaixar isso no próprio projeto pedagógico.
O substitutivo de Teresa Leitão foi além do texto original e ampliou o escopo para também incluir educação fiscal, previdenciária e de seguros, ensinando desde cedo para que servem os impostos, a previdência e uma apólice. Em seu relatório, a senadora justificou a ampliação assim: "esse desenvolvimento integral exige, de forma cada vez mais evidente, a compreensão da realidade econômica e a capacidade de tomada de decisões sobre consumo consciente, inclusive como instrumento de prevenção ao endividamento futuro". Como o Senado alterou o texto que veio da Câmara, o projeto ainda precisa passar por uma última votação dos deputados antes de seguir para sanção.
#Por que o brasileiro adulto tira 59,6 em 100 no próprio boletim financeiro
O número de 59,6 pontos vem da Pesquisa de Letramento Financeiro feita pelo Banco Central em parceria com o Fundo Garantidor de Créditos, com cerca de dois mil brasileiros entre 16 e 79 anos. A média nacional some por idade e por renda. Jovens de 16 a 24 anos tiram 64,5, a nota mais alta de qualquer faixa etária, o que já é um sinal de que a escola e a internet ensinam alguma coisa. Homens tiram 61,8, contra uma média menor entre mulheres. Quem tem 60 anos ou mais tira 53,6, e quem vive com até dois salários mínimos por mês tira 56. A nota cai justamente para quem menos margem tem para errar.

A autopercepção é ainda mais dura. Na 17ª edição do Observatório Febraban, pesquisa feita pelo IPESPE com 3 mil pessoas em junho de 2025, 55% dos brasileiros admitem entender pouco (40%) ou nada (15%) de educação financeira. Quando a pergunta muda para como eles enxergam a população em geral, o número sobe para 74%. O brasileiro médio acha que o vizinho entende ainda menos do que ele mesmo.
| Pergunta feita | Entende pouco | Entende nada | Total |
|---|---|---|---|
| Sobre o próprio conhecimento financeiro | 40% | 15% | 55% |
| Sobre o conhecimento dos brasileiros em geral | 42% | 32% | 74% |
Educação financeira e endividamento são temas afins: a dificuldade de controlar gastos leva muitas pessoas a contraírem dívidas para cobrir despesas e imprevistos. No entanto, o mesmo contexto de desorganização financeira aumenta o risco de inadimplência.
Enquanto este texto é publicado, uma nova rodada da pesquisa do Banco Central está em campo, com coleta prevista entre 29 de junho e 7 de agosto de 2026, para atualizar esse retrato e orientar novas políticas públicas. O resultado só deve sair depois, mas a tendência de fundo dificilmente muda em poucos meses: o Brasil aprende a lidar com dinheiro tarde e mal, e paga por isso em juro, em multa e em dívida que não precisava existir.
#O que os alunos vão aprender e que muita gente adulta nunca aprendeu
A lei não cria uma lista fechada de conteúdos, mas o texto aprovado no Senado deixa claro o que entra no currículo de forma transversal. Quatro frentes aparecem no substitutivo:
- Planejamento financeiro e consumo consciente. Entender a diferença entre precisar e querer, e o que significa gastar dentro do que se ganha.
- Organização da vida econômica e do trabalho. Da carteira assinada ao empreendedorismo, como a renda se transforma em decisões do dia a dia.
- Educação fiscal e previdenciária. Para que servem os impostos e como funciona a aposentadoria, dois temas que a maior parte dos adultos só aprende quando já é tarde para planejar.
- Educação de seguros. O que é uma apólice e por que ela existe, indo além do medo genérico de "seguro é gasto à toa".
Repare no que não está na lista: a escola não vai ensinar o que é Selic, IPCA ou CDI, nem como os juros compostos transformam um aporte pequeno em patrimônio ao longo de décadas. Esses são os dois blocos que mais aparecem em dúvidas de quem já trabalha e investe, e que seguem fora do currículo básico. Se esses termos ainda soam como economês, o texto sobre o que Selic, IPCA e CDI significam e o texto sobre como os juros compostos funcionam cobrem exatamente essa lacuna, em poucos minutos de leitura.
#Um roteiro de educação financeira para quem já passou da idade escolar
A lei vai formar uma geração mais preparada daqui a alguns anos. Ela não resolve nada para quem está com boleto vencido hoje. Para isso, quatro passos, na ordem, resolvem mais do que qualquer aula:
- Descubra para onde o dinheiro está indo de verdade. Pegue os últimos três meses de fatura e extrato e separe por categoria. A maioria das pessoas erra o próprio gasto com alimentação e assinaturas por uma margem grande, porque nunca fez essa conta. Uma planilha, um aplicativo ou um sistema de gestão resolvem, desde que o registro seja constante, como comparamos no texto sobre planilha, app ou sistema de gestão financeira. O lifin entra nessa etapa de um jeito específico: ele lê as notificações de Pix, boleto e cartão que já chegam no celular, sem pedir senha de banco, e organiza isso automaticamente para o fechamento do mês.
- Divida a renda em blocos simples. Não precisa ser sofisticado. Separar em despesas fixas, desejos e uma parte que vira reserva ou investimento já corrige a maior parte dos furos comuns de orçamento.
- Construa uma reserva antes de qualquer outra meta. Sem esse colchão, qualquer imprevisto vira cartão de crédito parcelado, e cartão de crédito parcelado é a porta de entrada mais comum para o endividamento que a pesquisa da Febraban mede todos os anos.
- Revise o mesmo roteiro todo mês. Educação financeira não é um curso que se conclui uma vez. É um hábito curto, repetido, que substitui a aula que a maioria de nós nunca teve.
#O que fazer com essa notícia esta semana
A lei do Senado ainda depende de uma última votação na Câmara antes de virar regra definitiva. Mesmo assim, ela já diz algo sobre o momento: o país reconheceu, por lei, que não ensinar isso tem custo. O custo aparece nos 55% que admitem entender pouco ou nada do próprio dinheiro e no risco de inadimplência que Lavareda descreveu na pesquisa da Febraban.
Você não precisa esperar a Câmara votar, nem esperar seus filhos crescerem, para fechar essa lacuna. O roteiro de quatro passos cabe em um fim de semana para começar e numa tarde por mês para manter. A diferença entre quem carrega essa nota baixa para sempre e quem sai dela está inteira nesse hábito.
Fontes: Senado Federal, aprovação em Plenário do Projeto de Lei 2.979/2023 em 15 de julho de 2026 e relatório da senadora Teresa Leitão sobre o substitutivo; Banco Central do Brasil e Fundo Garantidor de Créditos, Pesquisa de Letramento Financeiro (edição de 2023) e nova rodada em campo entre 29 de junho e 7 de agosto de 2026; Febraban e IPESPE, Observatório Febraban, 17ª edição, pesquisa com 3 mil pessoas em junho de 2025, incluindo declaração de Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do IPESPE.


